Crise de representatividade política traz desesperança a jovens, diz Collor

9 maio 2017
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Categoria: Notícias
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O presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado (CRE), Fernando Collor (PTC/AL), disse que a crise de representatividade política que o mundo assiste traz desesperança para a juventude. “Eles não estão se vendo com um lugar ao sol no futuro”, frisou ele. Na noite desta segunda-feira (8), o colegiado realizou o 4º painel e debateu o populismo e a crise de legitimidade política na Europa e nos Estados Unidos. Um dos principais temas discutidos foi a eleição na França. O centrista Emmanuel Macron, entusiasta da continuidade da União Europeia, elegeu-se no último domingo, derrotando a candidata de extrema direita Marine Le Pen.

Para o senador Fernando Collor, as candidaturas e os resultados de pleitos com nomes considerados de extrema direita – tanto na Europa como nas Américas -, mostram uma tendência de globalização do descredito que a representatividade política enfrenta atualmente no mundo. O senador ponderou que, diante deste crescente movimento, sobretudo com o populismo, até a democracia é colocada em xeque por alguns, abrindo, assim, caminho para regimes autoritários.

“O que há hoje é a falta de esperança, de expectativa. A juventude olha para o futuro e não se vê colocada lá. É como se o mundo não estivesse preparado para receber essa geração de jovens que está procurando um lugar ao sol e não está vendo como alcançá-lo. A desesperança talvez traga essa insatisfação, inclusive, com a democracia. Então, o que nos resta sem democracia? Qual é a alternativa a um processo que não seja democrático? Um processo autoritário? Será esse processo a solução de todos para os problemas que as pessoas estão enfrentando?”, indagou o presidente da CRE.

Debate

A preocupação com a onda populista gerada pela saída do Reino Unido da União Europeia, conhecida como Brexit, pela eleição de Donald Trump e pelo crescimento de candidatos nacionalistas em eleições recentes na França, na Holanda e na Áustria não é um movimento final, e faz parte de um ciclo. Essa é a opinião de alguns dos especialistas ouvidos em audiência pública realizada nesta segunda-feira.

Na opinião do professor Paulo Delgado, ex-deputado federal, um dos fatores que favoreceram Macron na França foi o fato de sua adversária, Marine Le Pen, ter oferecido um “discurso de pólvora”. Ele disse acreditar que, em países onde há uma fricção muito grande no sistema político, como é o caso do Brasil e da Argentina atualmente, esse tipo de discurso não tem força. “Não fale em pólvora perto de um povo esquentado. A saída do mundo é pelo centro, a saída do mundo é a moderação”, afirmou.

Ciclos

Para o professor, o que continua em vigor são os chamados ciclos longos de Kondratiev, que indicam os efeitos cíclicos da economia mundial. Ele disse acreditar que os movimentos que ocorrem hoje, no mundo, não são um destino final, mas uma consequência do fim de um ciclo em que estados centralizados diminuíam a tensão no mundo entre as pessoas comuns. Agora, com o fim das superpotências e a diminuição da tensão entre os líderes mundiais, o conflito se acirra entre os cidadãos, como mostra o número de expatriados que tentam ir para outros países.

O professor Mathias Alencastro, doutor em Ciência Política e especialista em política europeia e africana, também não acredita no caráter duradouro e na narrativa global da onda populista. Na avaliação do professor, tanto o Brexit quanto e a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos tiveram razões locais para acontecer. Alencastro avalia que o populismo, nesses dois casos, deu provas de incapacidade de governar, já que os participantes mais radicais dos movimentos foram excluídos e tornaram os movimentos genéricos. A eleição de Macron na França, disse o professor, reforça essa teoria e gera otimismo.

Eleições parlamentares

Já o professor Lucio Rennó, PHD em Ciência Política, acredita que é preciso analisar se as mudanças que ocorreram atualmente na política em vários países no mundo significam apenas ciclos de alternância de posições econômicas ou realinhamentos ideológicos reais. Por enquanto, segundo o professor, há indicativos de que Macron seja realmente algo inédito na política e isso pode ficar mais claro após as eleições legislativas na França, em junho.

“Os próximos momentos do Macron serão fundamentais porque teremos eleições legislativas na França. Temos a formação de um governo que pode ser reforçado ou renovado, dado o resultado eleitoral, mas a construção do governo Macron será um indicativo dos caminhos que ele irá trilhar ideologicamente. Talvez seja cedo para responder a essa pergunta”, afirmou o especialista, ao sugerir um novo debate no futuro.

Brasil

Mathias Alencastro avalia que a eleição de Macron é positiva para o Brasil e significa mais abertura comercial, mais investimento em ciência e tecnologia e mais política externa. A exigência para o Brasil será de elevar o padrão de cooperação internacional. Para ele, o Brasil, agora, tem um panorama internacional mais claro para planejar no longo prazo.

“Tem dois caminhos: o Brasil pode tentar se alinhar em torno governo Trump, que está apostando em uma regressão tecnológica e civilizatória dos Estados Unidos, retirando financiamento das agências de energia, de meio ambiente e de ciência ou da União Europeia, da Angela Merkel e do Macron, que vão tentar fazer exatamente o contrário, elevar o padrão”, afirmou.

Representatividade

O presidente da Associação Nacional dos Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental (Anesp), Alex Canuto, avalia que não há uma crise de representatividade, mas sim um aumento dela com a inclusão de novos grupos que antes não tinham espaço na política. Essa inclusão é propiciada, em parte, pela internet. A crise, afirmou, é uma alegação de grupos que antes tinham todo o poder e que, agora, o dividem com novos atores.

No Brasil, disse o professor, esse novo panorama pode ter reflexo nas eleições de 2018, mas há uma dificuldade para que isso ocorra: a falta de flexibilidade no sistema político que existe nos Estados unidos e na França, por exemplo. Ele citou a falta de previsão legal para as candidaturas independentes, que permitem a ascensão de novas lideranças.

“O nosso sistema político, eleitoral e partidário possui alguns filtros. É um sistema que, da forma como está construído hoje, favorece a construção e consolidação de oligarquias partidárias. Por exemplo, você não tem, no Brasil, o instituto da candidatura independente como tem nos Estados Unidos. Muitas vezes a gente vê as coisas se distorcendo para uma expressão que é usada muito na mídia: a  compra de partidos”, concluiu.

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