Collor: América Latina pode ser protagonista no mundo ao abraçar globalização

22 novembro 2017
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Categoria: Notícias
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A convite da Academia do Reino do Marrocos, que reúne os principais acadêmicos e figuras públicas do Marrocos e do mundo, o presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado Federal, Fernando Collor de Mello (PTC/AL), proferiu, nesta quarta-feira (22), uma conferência sob a temática “A América Latina e o Horizonte da Globalização – Percurso de Navegantes ou de Náufragos?”, onde o parlamentar também foi homenageado pelos integrantes da Casa. Na ocasião, autoridades marroquinas, parlamentares e líderes do setor produtivo destacaram o pronunciamento de Collor, para quem a América Latina pode assumir um papel de protagonismo e de independência no cenário internacional, caso escolha a globalização como um caminho viável e possível para o desenvolvimento de suas ações.

À oportunidade, Collor defendeu também uma parceria comercial com o Marrocos, visto que o país é a porta de entrada de nações latino-americanas para o mundo árabe e a África e, portanto, um acordo econômico seria uma excelente oportunidade para os países. Aproveitando o convite da academia, Collor também mostrou as possibilidades comerciais e todo o potencial latino-americano para a África e para o mundo, reforçando a importância do estreitamento das relações entre as nações. A Academia escolheu para estudar, durante sua sessão de 2018, uma temática latino-americana. De acordo com Collor, o tema a ser discutido demonstra o interesse do Marrocos em fortalecer as relações com o Brasil e os países da região.

Em francês, o ex-presidente discorreu sobre todo o contexto histórico dos movimentos que marcaram o passado da América Latina, desde o descobrimento até os dias atuais, passando pelos processos separatistas e guerrilheiros, e finalizando com o fortalecimento das eleições democráticas e as parcerias comerciais entre as nações.

Contudo, o senador defendeu que é possível ir além, principalmente se as elites dirigentes latinas enxergarem os avanços possíveis por meio da globalização em curso – independente de viés ideológico ou político -, a fim de colocar os países em nível de competitividade com outros blocos econômicos. Collor declarou, ainda, que a globalização é um fenômeno irreversível que acarreta em ganhos, mas também provoca consequências para a mão de obra não especializada. Como um caminho para alcançar o desenvolvimento desejado pelas nações latino-americanas, ele defendeu o investimento na área de biotecnologia.

“Para a América Latina, um caminho possível nesta direção é, sem dúvida, o da biotecnologia, uma alternativa de investimento muito mais barata do que um programa espacial ou mesmo a siderurgia, por exemplo. Esta é uma oportunidade especial para a América Latina, que poderia formar um consórcio voltado ao desenvolvimento de biotecnologia. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) tem um reconhecido trabalho nesta área e muito poderia contribuir nesse sentido. Todos os aspectos básicos da globalização estão colocados à mesa: fluxos comerciais e transações financeiras, movimentos de capital, de investimentos e de pessoas e, ainda, a disseminação de conhecimento”, expôs o parlamentar.

Para Collor, diante das oportunidades em discussão, restam às nações latinas aprofundar tais caminhos, ou seja, avançar rumo à integração com nações da região e também com países emergentes, para, com isso, aproveitar as vantagens comparativas que possuem, somando forças no jogo do poder internacional.

“Ao mesmo tempo, precisamos fazer com que nossos países se tornem cada vez mais atrativos para os investimentos de longo prazo, em setores que nos sejam prioritários, a exemplo do que fizeram os Tigres Asiáticos e a própria China, que se transformou na grande fornecedora de produtos industrializados da atualidade. Isso requer estabilidade política e segurança jurídica, o que exige nossa permanente atenção”, reforçou Collor.

Collor expôs também que a América Latina vem passando por um processo de abertura econômica e de integração desde o início dos anos 1990, em paralelo com a democratização de suas instituições políticas, em meio a crises e turbulências. Assim, frisou ele, no caso da América Latina, a superação de seus obstáculos está na integração entre os povos, na drástica redução das desigualdades, na efetividade da educação universalizada e na eficácia do desenvolvimento sustentável.

“No momento, este é o papel ao mesmo tempo básico e inovador do continente latino-americano”, pontuou, citando um pensamento de Montaigne, de que “o mundo não passa de um balanço perene”. “Sendo assim, entre trilhas pela esquerda e atalhos pela direita, o desafio é encontrar o caminho do equilíbrio e a centralidade do pêndulo. A América Latina, portanto, parece estar no rumo certo. Se seremos náufragos, ou navegantes, o futuro dirá”, avaliou o ex-presidente da República.

Contexto histórico

Ao discorrer sobre o contexto histórico, Collor lembrou que a América Latina sempre sofreu os efeitos dos interesses das grandes potências, desde o seu descobrimento pelos espanhóis, no século XV. O senador avaliou que, se a correlação de forças era dada sobretudo pelo poderio militar, atualmente, a economia, o conhecimento e a inovação desempenham um papel mais importante nas relações. O senador destacou, ainda, que a interligação de mercados levou a um curioso fenômeno, que é o fato de os países envolvidos neste processo comercial evitarem conflitos armados para não prejudicarem seus negócios recíprocos. Portanto, na visão do senador, a globalização poderia ser um caminho para a paz e passar a representar ou, mais do que isso, significar a verdadeira convivência internacional.

“Se dependesse apenas de poderio militar, a América Latina estaria fadada a continuar a reboque das grandes potências, mas a globalização oferece uma oportunidade de transformar a região num dos principais players do século XXI, acentuando sua capacidade de soft power. Para que isso aconteça, precisamos, na América Latina, encontrar líderes que saibam perceber as tendências da modernidade, para onde avança o mundo. Não podemos ser ingênuos e acreditar que as grandes potências estão dispostas a abrir mão do seu espaço. Nós, latino-americanos, precisamos vislumbrar as oportunidades que estão diante de nós e nos prepararmos para elas. E a globalização é uma grande onda de oportunidades. Mas, se não estivermos preparados, ela pode se transformar num tsunami devastador, e aí sim correremos o risco de nos tornarmos náufragos”, colocou.

“Deserdados da globalização”

Ainda em sua conferência, Collor chamou a atenção, mais uma vez, para os “deserdados da globalização” – que seriam aqueles que não conseguem inserção no mercado de trabalho, em razão da falta da especialização que o mercado exige. Para o senador, cabe ao Estado encontrar mecanismo e prover soluções reais que possibilitem uma nova realidade para essas pessoas. Na conferência, o senador demostrou que, se no plano global constata-se o fenômeno das migrações e dos refugiados, no plano local, de cada nação, vislumbra-se o desemprego e as guerras civis.

“Estes fenômenos de instabilidades cada vez maiores estão correlacionados, tendo, em boa medida, um como consequência do outro. Se de um lado os conflitos internos geram os fluxos de refugiados, de outro, o desemprego gera as migrações. E nos dois casos, o pano de fundo é a globalização e o não-atendimento às expectativas por ela geradas. O fato é que, de modo geral, a juventude nos países menos desenvolvidos, como é o caso das nações latino-americanas, está sem rumo, sem perspectiva. A globalização gera expectativas de oportunidades e estilos de vida que nem sempre estão ao alcance da maioria dos jovens. Por uma série de razões, o que se colhe é o desemprego, a exclusão e a decepção, que se transforma em frustração”, alertou.

O senador avaliou, ainda, que a exclusão provocada pela globalização torna o cenário no mundo sombrio e, particularmente na América Latina, imprevisível. Mas também, segundo ele, mostra um norte e nos revela uma certeza: não há mais como desconsiderar a premente necessidade de inclusão social dos deserdados da globalização. “Por isso, devemos lutar por menos nacionalismos e mais multilateralismos; por menos protecionismos e mais abertura; por menos isolacionismos e mais integração; por menos ideologias e mais pragmatismo; por menos retórica imatura e mais diálogo responsável. Para tanto, as nações precisam se livrar das amarras do passado, do atraso e do preconceito, notadamente naquelas regiões que ainda estão por construir um futuro mais desenvolvido e mais igualitário, como é o caso de continentes como a América Latina e a África”, colocou Collor.

A Academia

A Academia do Reino do Marrocos foi fundada em 1977 pelo Rei Hassan II, com o objetivo de reunir alguns dos principais acadêmicos e figuras públicas do Marrocos e do mundo. É a mais importante associação acadêmica do Marrocos. Caracteriza-se por sua vocação multidisciplinar e tem tido, entre seus membros, cientistas, vencedores do Prêmio Nobel, diplomatas e figuras internacionalmente conhecidas.

Entre as principais atividades da academia está a organização de séries de seminários sobre temas candentes, que servem, inclusive, para informar a elaboração de estratégias e tomada de decisões no âmbito do governo marroquino.

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